Vitalidade

Jovens

FORA DE MIM

David Stone*

Tentei parar de tentar dormir as 3:30 da manhã. Estava muito empolgado para perder meu tempo deitado numa cama. Minhas aulas na faculdade começariam naquele mesmo dia, e eu sempre quis causar uma boa impressão, especialmente porque nem havia cursado o último ano do Ensino Médio. “Uma noite de sono não me fará tão mal”, pensei. “Depois posso compensar pela noite perdida”.

Naquela manhã, recebi uma ligação de uma casa de idosos onde costumava tocar piano. Fui convidado para tocar músicas alegres para os moradores. Como só teria aulas no período da tarde, aceitei o convite.

 

Entrei esbaforido pelas portas da casa de idosos. “Dave, você precisa se acalmar”, disse minha mãe tentando me alcançar. “Seu pai e eu temos lhe observado durante as últimas semanas, e você tem se movimentado de forma muito rápida, quase sem controle. Lembre-se que você não está dormindo bem...”

 

“Mã-ãe”, eu disse, esticando a palavra em tom de exasperação. “Por que você tem que se preocupar comigo o tempo todo? Eu sei cuidar de mim mesmo”.

 

Ela apenas me olhou, enquanto entramos no salão principal da casa de idosos.

 

A diretora de atividades nos cumprimentou. “Estamos muito felizes com a sua presença. A sua música realmente anima os moradores”.

 

 

“É, eles vão gostar”, falei ofegante. “Eles sempre gostam”.

 

Depois de uma pausa, ela me perguntou: “Você pode nos acompanhar ao cantarmos o hino nacional?”

 

 

“Claro! Este é fácil”. Rabisquei alguns acordes no caderno. Então pensei: “Tenho ouvido absoluto e não preciso ficar verificando esses acordes”. Olhei para a minha audiência e comecei a tocar. Os moradores rapidamente começaram a me acompanhar cantando o começo do hino.

 

 

“Ah! Eles estão desafinando”.

Logo em seguida, toquei algumas notas erradas no acompanhamento. Por isso, fiz uma pequena pausa, voltei um compasso e comecei a tocar novamente. Então, os moradores começaram a cantar desafinado de novo.

 

“Eles estão completamente foram do tom, e não conseguem me acompanhar. Esqueça eles. Essa peça é chata mesmo. Pelo menos assim chama mais a atenção”.

Comecei a improvisar e tocar acordes estranhos. Todos pararam de cantar, e alguns mais velhos até se retiraram do local. Pude perceber minha mãe se desculpando para a diretora de atividades, mas não me importei e continuei tocando.

 

“O que há de errado com todos?”

O resto do dia passou como um borrão. Minhas aulas foram intensas. Não passei em um teste, perdi o ônibus e cheguei em casa muitas horas depois do que deveria. Era como se eu estivesse dentro de um vídeo, indo pra frente e para trás, sem um fim.

 

Finalmente me rendi ao descanso as 11 da noite. Larguei meus livros e me joguei na cama, a espera do sono que não vinha. Meu corpo estava exausto, mas minha mente não o deixava descansar.

 

“Amanhã vou acordar cedo e começar a escrever o trabalho que o professor passou. Talvez eu escreva dois, e entregue o que ficar melhor. Meu tema será insônia crônica e sua prevenção. Com certeza tenho esse problema. Por que não consigo dormir?”

 

Chutei as cobertas e peguei meu computador. “Se não consigo dormir, é melhor começar a escrever”.

 

Eu escrevia sem parar. Rascunhei algumas ideias estranhas para trabalhos escolares, letras de música, cartas para velhos amigos e poemas. Quanto mais rápido eu escrevia, mais ideias me ocorriam.

 

Somente as 3:30 da manhã, tentei dormir novamente.

 

Assisti o movimento do ventilador de teto durante uma hora, enquanto a minha mente repetia aquela rotação durante todo esse tempo. “E se eu não dormir e virar a noite? Será que consigo ficar acordado na aula amanhã? Só tenho mais quatro horas antes que amanheça”.

Comecei a tremer. Não conseguia controlar tantas perguntas em minha mente e comecei a ficar preocupado. “O que há de errado comigo?”

 

O medo me envolveu, e comecei a ficar ofegante. Meu corpo inteiro tremia. Lágrimas silenciosas queimavam meu rosto. Ouvi uma voz divagar freneticamente, e então percebi que era a minha própria voz, amaldiçoando e orando ao mesmo tempo.

 

Meus pais correram para o meu quarto, e eu agarrei meu pai, dizendo descontroladamente: “Quero ser exorcizado agora mesmo”. Ele balançou a cabeça e gentilmente me colocou de volta na cama.

 

 

 

“A minha graça te basta, porque o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza” (2 Coríntios 12:9).*

 

Enquanto meus pais liam a Bíblia, minha respiração ficou mais tranqüila. A leitura da palavra de Deus me confortou. Meu pesadelo acabou naquele momento, e finalmente dormi.

 

Diagnóstico surpreendente

 

 

Nas semanas que se seguiram, os médicos me diagnosticaram com transtorno bipolar, também conhecido como psicose maníaco-depressiva. Isso significava que havia um desequilíbrio químico no meu cérebro que me fez alternar entre profunda depressão e atitudes impulsivas.

 

Meu médico me disse o seguinte: “Se você tomar a medicação correta, o problema pode ser controlado”. Mas tive que esperar duas semanas para ser consultado pelo psiquiatra, que me receitou os remédios. Nessas duas semanas, senti as duas extremidades da bipolaridade me esmagando.

 

Em alguns momentos, a depressão me levou ao fundo do poço, tirando toda a alegria que eu normalmente sentia pela vida. Não queria fazer nada a não ser deitar e esperar o dia passar.

 

Assim que recuperei minhas energias, pensei que havia voltado a funcionar normalmente. Mas minhas tendências e impulsos me estimulavam a mover e pensar mais e mais rápido. Isso ocorreu com tanta intensidade, que em dado momento, meu corpo e mente não agüentaram e eu caí em profunda depressão novamente.

 

Durante a espera dessas duas semanas, aprendi mais sobre o transtorno bipolar, fiquei ainda mais frustrado pelo fato de não conseguir me controlar, e parecia que eu estava preso numa ponte de gelo, que derretia devagar.

 

Eu sentia como se houvesse um poço de insanidade embaixo dos meus pés, e com movimentos mínimos, estava prestes a mergulhar nele. Ao olhar para esse “poço” ao redor dos meus pés, eu só tinha uma pergunta em mente: “Por que Deus permitiu que isso acontecesse comigo?”

 

Mesmo depois de começar a tomar a medicação correta e voltar a pensar de forma clara, ainda questionava a razão pela qual Deus havia permitido tudo isso. Eu havia mudado. No meu período mais impulsivo, eu disse e fiz muitas coisas que me arrependi. Machuquei minha família, e foi muito difícil para meus amigos entender porque eu estava agindo de forma tão estranha.

 

Como não conseguia me controlar e mudar o meu estado de compulsão e depressão, eu questionava ainda mais a Deus: “Qual é o Seu propósito com isso tudo? O que o Senhor está tentando me ensinar?”

 

Essas perguntas permaneceram em minha mente pelos dois anos subseqüentes.

 

Minha resposta

 

Finalmente, minha vida voltou ao normal, e em alguns momentos, eu até esqueci que tinha transtorno bipolar. Até que um dia, enquanto lia a Bíblia e orava, li o texto de Provérbios 3:5: “Confia no Senhor de todo o teu coração, e não te estribes no teu próprio entendimento”. Eu já havia ouvido esse texto centenas de vezes no passado, mas naquele dia, Deus disse: “Olá! Estou falando com você!”

 

Confiar no meu entendimento? Durante toda a minha vida, me orgulhei da minha inteligência e de minhas habilidades. Pulei séries na escola e participei de acampamentos de verão para acadêmicos. Fiz testes difíceis mais de uma vez só para melhorar ainda mais minhas notas e assisti aulas de cursos universitários enquanto estava no Ensino Médio. Apesar dos sinais de Deus contra o orgulho, deixei tudo isso tomar conta de mim.

 

Então, Deus me humilhou e permitiu que eu fosse acometido de uma doença mental, levando com ela as habilidades das quais em sempre me orgulhei. Ele me ensinou que eu não deveria confiar em minha própria mente para viver, porque nem sempre ela seria capaz de resolver meus problemas. Ao invés disso, eu deveria seguir Seu conselho: “Confia no Senhor de todo o teu coração, e não te estribes no teu próprio entendimento” (Provérbios 3:6).

 

Foi uma dura lição, mas é confortante saber que Deus é quem nos guia. Ele promete enviar o Espírito Santo para nos ensinar e lembrar do que Deus disse (João 14:26). E não importa o que aconteça em nossa vida, nada (nem mesmo uma doença psicológica), vai nos separar do amor de Deus (Romanos 8:38,39).

Então, apesar de ainda ser difícil lidar com meu transtorno bipolar, me conforto na promessa de que Deus vai me guiar no caminho ao céu, para que eu possa estar com Ele para sempre.

*David Stone é um pseudônimo.

Esse artigo foi publicado originalmente na revista Insight, em setembro de 2012

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